Heterotopia.
Antes de começarmos a falar sobre heterotopia, é de altíssima importância mencionar que o assunto nada tem a ver com sexualidade, nem com heteros top (embora escrever sobre o segundo me parece uma ideia bem divertida).
A palavra heterotopia vem do grego, onde hetero = outro, diferente; e topos = lugar, espaço. Assim nasce o termo que pode ser traduzido para o português como “lugar diferente” ou “outro lugar”, definido no final da década de 1960 pelo filósofo e historiador francês Michel Foucault. Para Foucault, heterotopia “é e não é, existe mas não existe, está mas não está”; um espaço irreal dentro de um espaço real, onde as normas, as regras, os comportamentos e as expectativas são diferentes do padrão, mesmo que existindo dentro dele.
Penso que tentar definir heterotopia pode ser frustrante. É mais simples observar as muitas heterotopias em nossas vidas, que existem sem nos darmos conta. Aqui posso citar algumas, como as praias, os parques, os condomínios, os cinemas, as escolas, as bibliotecas, os cemitérios; lugares onde as regras e a dinâmica podem não ser convencionais, ainda que existam dentro de uma realidade - até então - convencional.
Mas a heterotopia não se limita ao mundo físico. Ela se estende aos videogames, filmes, televisão, internet, smartphones e redes sociais. Qualquer forma de sermos retirados do mundo exterior e trazidos para outro mundo onde a forma de existir não é “natural", pode ser considerada uma heterotopia. No artigo Heterotopia em Michel Foucault, o autor Vinicius Siqueira usa o espelho como exemplo de uma heterotopia, já que a sua função é mostrar uma verdade falsa que é tomada como legítima e “em sua realidade, se transforma em item de aproximação do sujeito concreto refletido”¹. Assim, me pergunto, quantos de nós vivemos em heterotopias dentro das nossas telas, por debaixo das nossas roupas, atrás de nossas máscaras?
Mas não é de hoje que o ser humano procura alternativas para fugir de sua miserável existência. Em 1516, Sir Thomas Moore publica o livro Utopia, que conta a história de uma ilha com sistemas “ideais” de política e sociedade, onde tudo é perfeito, tudo funciona, todos são felizes. E assim, o termo utopia é definido como esse sonho impossível, o ideal inalcançável: onde todos vivem em harmonia, e a política e a economia favorecem o bem-estar da população.
Quantos de nós sonhamos com a casa perfeita, a vida perfeita, o mundo perfeito? Quantos de nós apostamos na verosimilhança de nossa utopia dia após dia, e perdemos, já que ela foi feita para não existir?
A utopia é imaginária, e me parece mais simples, já que suas possibilidades são infinitas. Ela é o perfeito inatingível, somente isso. Já as heterotopias são físicas, tangíveis. Um bom exemplo é a praia: areia, mar, pessoas semi nuas sentadas embaixo dos guarda-sois, vendedores passando, crianças livres. Na praia, é normal estar descalço, sem camisa, molhado, sujo; os padrões e comportamentos são diferentes daqueles dos meios urbanos ou rurais. As pessoas interagem de outras formas, em um ambiente que permite essa realidade única que só existe ali, uma vez que acaba quando não se está mais ali. Por isso, é uma heterotopia.
Eventos também misturam o irreal com o real: uma festa de aniversário é só um conceito, mas o seu espaço físico a transforma em realidade. Se pensarmos em eventos heterotópicos de forma mais profunda, podemos considerar baladas, festivais, shows e o carnaval como espaços fora do padrão, onde as regras mudam, por isso, o comportamento das pessoas e a forma como elas se relacionam, também.
Por um lado, a heterotopia pode ser vista como algo provocador, ousado, até perigoso, uma vez que desafia as normas e brinca com a liberdade. Onde ficam os limites? Quem os determina? Por outro lado, a heterotopia pode trazer alívio, esperança, distração: sentimentos que o homem tanto anseia e precisa para uma experiência humana completa.
Me arrisco dizer que a sociedade nunca esteve tão heterotópica como a atual, onde passamos mais tempo imersos em realidades alternativas do que nas nossas próprias. Nos importamos muito em fugir do nosso real, ou ainda em mostrar o real que não existe. Somos como crianças, inventando histórias e imaginando cenários que nos convém, porque acreditamos que podemos decidir nossas próprias verdades. Ainda que esse comportamento faça parte da nossa existência, o exagero nos deixa anestesiados pelas nossas heterotopias, em busca das utopias, sem perceber que já temos e somos tudo aquilo que podemos nesse exato momento, que já é real por si só.
Grande parte disso tudo é resultado da indústria cultural, que há muito tempo vem criando heterotopias em massa, cada vez de forma mais rápida e mais tecnológica. A ideia, compartilhada em 1940 pelos filósofos alemães T. Adorno e M.Horkheimer, afirma que as formas de arte e cultura são transformadas em mercadorias de consumo fácil, pré-moldadas, de modelo fordista, levando à alienação da população, incentivando o hiperconsumismo e limitando o pensamento crítico, além de que “perpetuamente engana seus consumidores quanto àquilo que está perpetuamente a prometer”². Ora, é só olhar para as músicas pop, as séries da Netflix, as trends da vez. As letras cantadas falam dos mesmos assuntos, os enredos contados são previsíveis, as histórias são as mesmas. Mesmo que o consumidor veja isso, ele escolhe aceitar porque é mais fácil: essas heterotopias funcionam para os espectadores, que parecem estar cada vez menos exigentes em relação à arte e cultura que consomem.
A heterotopia, então, cumpre seu papel na nossa sociedade. Cada um de nós escolhe a sua, uns mais, outros menos, dependendo daquilo que procura encontrar ou esquecer. Pode ser a praia, ou o videogame, ou o Instagram. Pode ser um filme romântico, ou um festival de música, ou o happy hour de toda quinta-feira. A heterotopia faz isso, ela permite que o indivíduo se adapte à existência que ela diz ter, mesmo que temporariamente.
E penso que, na verdade, existe muito nesse “não existir”.
Fontes consultadas:
[1] https://colunastortas.com.br/heterotopia-em-michel-foucault-drops-49/
[2] https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/208/o/ADORNO.pdf?134956850